segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Entrevistas: Bruno Novais

 A partir de hoje, começamos a publicar aqui em nosso blog, uma série de entrevistas com artistas e pessoas que marcaram a trajetória da Curta Dança. Começamos com Bruno Novais, que participou das edições 2019 e 2021 da nossa mostra!




Conte um pouco para nós sobre a sua trajetória na dança. 

Minha trajetória na dança inicia desde quando eu tentava imitar o Michael Jackson e outras referências do R&B na minha casa. Meu primeiro curso de dança foi em 2007 com Dança em Salão em Guarulhos (cidade na qual eu nasci). Mudo para Bragança Paulista (interior de SP) em 2008 e experiencio por 1 ano integrar uma Cia. De Flamenco de 2014 a 2015, mas sempre levando o hip Hop comigo em meus trabalhos paralelos. Quando íntegro um grupo de teatro e dança contemporânea na mesma cidade, descubro como misturar todos os meus conhecimentos em uma dança que é MINHA, que fala da minha história. Com isso, mudo para Salvador em 2016 e início a graduação em dança. De lá pra cá, já realizei duas graduações, uma especialização e estou terminado o mestrado na mesma área. Atuo como diretor, interprete criador, produtor cultural, publicitário e editor de vídeo em um núcleo chamado EUS (Etnografias Urbanas Subversivas), no qual focamos em uma estética negra e seus intercâmbios com outras temáticas como género e sexualidade, feminismo negro e ancestralidade em cena. 


Quando foi sua primeira experiência no Curta Dança? 

Minha primeira experiência no Curta-dança foi em 2019, em sua 4° edição quando apresentei o meu solo intitulado Garra. Foi a primeira vez que viajei sozinho para apresentação de um trabalho e foi incrível. Fui super bem recebido, fiz amigues que levo pra minha vida até hoje e ainda comi bastante queijo com doce de leite (kkkkkk). 


Como foi o dia em que você descobriu que tinha passado no mestrado em pleno festival?

Foi incrível, eu soube do resultado 1 hora antes de entrar em cena. Sinto que a notícia potencializou o meu solo e confirmou todo o meu esforço e trabalho. No bate-papo logo após das apresentações daquele dia (09 de dezembro para ser mais exato, jamais esquecerei dessa data... Kkkk) pude dar a notícia para todo o público e os colegas artistas que estavam presentes comigo. Enquanto um artista negro e gay, que venho de um contexto periférico e consigo compartilhar uma boa nova logo depois de uma apresentação, foi uma conquista que jamais esquecerei. E poder divulgar isso com a galera do curta-dança só melhorou essa sensação.


Como alia teoria e prática em sua pesquisa como dançarine?

Minha pesquisa vem da minha experiência de vida enquanto uma bixa preta. Atualmente estudo sobre a pluralidade dos afetos negros e LGBTQIAP+ na dança contemporânea. Falar sobre afetividade nessa área, é trazer uma potência de corpo, alma e sentimento em danças criadas como forma de resistência e (rê)existência. Atualmente estou desenvolvendo uma metodologia em dança intitulada Mapeamento dos afetos, que consiste em um procedimento de reflexão e escrita pelo corpo utilizado como disparador para processos criativos. Penso que refletir sobre afetos pretes na dança nos permite acessar outras nuances de potencias dramatúrgicas. Ao mesmo tempo que registro essas escritas nos meus artigos e trabalhos acadêmicos, citando autores como bell hooks, Silvia Almeida, Renato Noguera, Sobunfu Somé entre outres, eu exército no meu dia a dia uma escrita corporal em minhas criações. 


O que te marcou na edição 2021?

Eu nunca tinha feito uma residência tão grande a partir dessa metodologia que venho desenvolvendo desde de 2018. Acompanhar as descobertas de cada participante de suas danças partindo de seus afetos individuais e coletivos, com certeza foi muito marcante. Os depoimentos finais também mexeram muito comigo, me mostrou que estou no caminho certo.


Como foi conduzir uma residência?

Conduzir uma residência online sobre afetos nesse momento que estamos vivendo focada nas corpas pretes e LGBTQIAP+, sem dúvida foi de extrema importância. Mesmo com a distância física, senti uma conexão muito forte do grupo, pontuando um cuidado extremo na maneira de interagir uns com os outres. Apesar de ter mediado, para mim é uma troca, aprendi muito com todes e espero poder viver outras tantas experiências tão boas quanto essa. 


Para você que participou da última edição presencial em 2019, o que mudou para esse ano online?

Tudo muda né, apesar de ter sido incrível e enriquecedor nesse modo virtual, estar perto, sentir o calor do outre, não tem preço. Admirei muito o cuidado, eficiência e agilidade da equipe do curta-dança, que conseguiu deixar esse processo bem mais leve. As duas experiências foram incríveis, cada um com os seus altos e baixos. O virtual permite conectar pessoas que talvez o presencial não permitisse. Então considero ambas valiosas. 


Quais as expectativas para a próxima edição presencial (torçamos que em 2022)?

A minha primeira expectativa é conseguir integrar novamente o quadro de oficineires e/ou artista apresentando (kkkkk). Eu só consigo esperar coisas boas desse festival e equipe de produção, pois ambas minhas experiências foram incríveis como mediador, intérprete criador ou público. Espero ansioso que estejamos em tempos melhores para poder abraçar e dançar lado a lado com essa galera linda!!!


Sobre Bruno Novais

Atualmente estou mestrando no programa acadêmico de Pós-graduação em dança da UFBA. Licenciado e Bacharel em dança pela Escola de Dança da UFBA. Interessado em pesquisar a afetividade negra enquanto instrumento propulsor em processos criativos. Dançarino, produtor do Núcleo EUS. Entre os seus principais trabalhos concebeu e dirigiu o espetáculo "POC - Pretas, Ousadas e Contemporâneas" (2019), dirigiu e interpretou o solo/espetáculo "Amargo: Uma reflexão performática sobre afetividade negra" (2018) e o "Experimento Negras Utopias" (2017) em parceria com Eduardo Guimarães.  Produziu e organizou quatro edições da Mostra Etnografias Urbanas (duas presenciais e duas online) com o Núcleo EUS (2019-2021) e o 3º FNAC - Fórum Negro de Arte e Cultura junto com docentes e discentes das unidades de artes da UFBA.


sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Escritas em Dança: Escritos sobre oficinas e residências

 Por Stephany Motta


A edição 2021 do Curta Dança trouxe diferentes experiências de formação! Nossa estagiária Stephany Motta conta um pouco de suas sensações:


Oficina Dança dos Orixás - Dia 01
Sem dúvida foi um momento muito marcante para o público presente, onde se exaltou de forma expressiva a dança como principal expressão corporal.
Em seu 1° dia de edição, o artista Omimbruno Bruno Jansen soube encantar os participantes com suas performances e técnicas bem estruturados, misturados à sons típicos e seu carisma único.
Vemos este momento, como sendo além de descontraído, uma oportunidade de inclusão, representatividade e exaltação das nossas raízes.

Oficina Dança dos Orixás - Dia 02
As manifestações positivas e o aprendizado não cessou no 2° dia do Evento. Muitos outros orixás foram contemplados, e mais uma vez houve a mistura de movimentos, ritmo e história viva.
No final deste dia, houve um bate papo sobre os desdobramentos até aqui e o compartilhamento de jornadas, experiências e sabedoria de vida.
Até o momento muito se aprendeu sobre a dança e suas linguagens, sobre como o nosso templo se conecta com as divindades e sobre como mesmo distantes (devido à situação pandêmica existente) estamos ligados por uma energia que transforma e estimula a sermos sempre melhores.]

Oficina Dança dos Orixás - Dia 03
E hje foi o último dia da edição da oficina Dança dos Orixás. Seria precipitado dizer último dia, pois foi o início de grandes conexões e o pontapé inicial para grandes projetos.
Muito foi aprendido, e saímos com a sensação de dever cumprido, mas com a consciência que há um longo caminho a se trilhar.
O artista Omimbruno Bruno Jansen sem dúvida ofertou sua melhor performance, vale destacar que em contrapartida houve também muita entrega e troca de energias, resultando em muitos feedbacks des participantes.
Fica aqui o sentimento de gratidão e a certeza que a cultura e o respeito pelas raízes não morrerá!

Oficina Danças de Salão - Dia 01
A proposta da oficina, através da metodologia da professora Jocélia Freire, foi apresentar de forma crítica como a estrutura de gênero pode refletir no desenvolvimento da dança e num cenário mais amplo, mostrar como afeta o cotidiano, as ações e metodologias humanas.
Apresenta como os passos da dança estão ligados aos conceitos de poder, posse, autoridade (da figura masculina), e a passividade, sensibilidade forçada e moderação da sensualidade (na figura feminina).
A dança reflete as ideologias, inquietações e comportamentos humanos, num âmbito padrão; sendo tal, deve ser encarada como um organismo vivo e em constante transformação, sendo preciso a desconsideração de estigmas negativos, elitistas e preconceituosos.
É uma manifestação corporal, e sendo, deve dispensar obrigatoriedade de gênero, levando em conta que esta manifestação se dá por inquietações e cargas, sendo natural de TODOS SERES HUMANOS, sem distinção.
Sem dúvida, este primeiro dia foi incisivo, polêmico e de cunho reflexivo, sem dúvida se tornando necessária e de utilidade pública.
Uma nota pessoal é que a solução efetiva (porém não tão fácil de se resolver) para a questão dos estigmas enraizados (neste caso na dança e seus desdobramentos) é o investimento e destaque na Educação, mas com um pensamento e análise crítica, abordando uma desconstrução e um olhar clínico em pontos além dos passos, mas sim em significados e contextos históricos.

Oficina Danças de Salão - Dia 02
Neste segundo e último dia de oficina, foi focalizado principalmente o contexto histórico na dança e suas construções e no cotidiano.
Foram exaltados nomes de mulheres que representam o decolonialismo na dança; mulheres que fazem história e que fogem totalmente do padrão estereotipado, como por exemplo a dançarina Angela Cheirosa.
Neste dia a pauta discursiva foi sobre o tango e suas estruturas padronizadas. Não fugindo da prerrogativa da oficina anterior, conseguimos analisar e apontar estigmas estruturais de gênero, "raça" e outras segregações.
A oficina em si foi marcada por imensos debates e mostras de opiniões, a respeito principalmente dos papéis de gênero.
Muito do Tango foi apresentado: como surgiu, contexto histórico, integrantes e sua evolução até os dias de hoje.

Residência Travessias - Dia 01
Ministrada pela professora Claudiana Santos, o primeiro dia de oficina levantou a reflexão sobre pertencimento, sobre o que se entende por território e o que a questão de becos e vielas pode ser contextualizada na realidade atual.
Muito foi discutido sobre pequenas ações do cotidiano, mas como essas ações podem ter um contexto histórico de construção.
Finalizando o dia, foi pautado as vitórias, transformações e lutas de uma "minoria" e como isso é uma forma de resistência e desobediência perante à sociedade.

Residência Travessias - Dia 05
A oficina de hoje foi marcada por imensos debates acerca da ausência: ausência de corpos, ausência de inclusão, ausência de ideias.
No cenário da dança não é diferente: ainda há muita carência de acessibilidade para os deficientes físicos, um exemplo disso é a pouca representatividade do público com algum tipo de deficiência no meio, segregando ainda mais essa expressão de arte e cultura.
Quanto à esta situação, uma situação pautada (teoricamente fácil, mas na prática algo de construção complexa) seria incluir no universo dança (festivais, oficinas, festas regionais, palestras, ...) recursos para inclusão, como intérpretes de libras por exemplo, mas de forma fixa, efetiva e natural.
Foi colocado em pauta também a situação da pandemia quanto ao novo olhar aos deficientes audiovisuais: com a quarentena, resultado da situação pandêmica, muitas programações de diversos segmentos se deram por lives, por presença remota, que de certa forma ampliou o acesso desse público à áreas não acessadas.
Muitas coligações foram feitas, abrindo espaço para reflexões, questionamentos e posicionamentos. Algo extremamente necessário e atemporal.

Residência Travessias - Dia 06
Último dia de residência: tanto foi vivido, debatido, explorado até aqui. Neste 6° dia, não se adentrou em assuntos conceituais mas sim em cada participante, como um ser com planos, experiências e vivência.
Cada presente falou um pouco de si: suas jornadas, idealizações e sonhos, em como a dança foi um mecanismo comum de transformação e um divisor de águas na vida de todos.
Foi interessante ver a busca de cada um, sentir que todos em suas diferenças são semelhantes: cada um no seu tempo, buscando seu "lugar ao Sol", e buscando refúgio das mazelas da sociedade pelas vertentes da cultura e arte.
Fica a gratidão, os aprendizados adquiridos e a certeza de que é necessário e urgente a defesa de apoio e incentivo cultural no Brasil, principalmente pelos Órgãos Públicos, já que como resultado se tem a transformação a um olhar crítico em toda uma sociedade.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Escritas em Dança: Dançar o tempo, dançar com o tempo, dançar sem tempo: Uma visita aos (in)cômodos de Silvia Moura (por Clóvis Domingos)

Ensaio escrito a partir do trabalho Casa-Corpo-Mulher-Árvore, apresentado virtualmente na Mostra Dança Agora do Itaú Cultural de São Paulo.


- por Clóvis Domingos


“O tempo, o tempo, o tempo e suas águas inflamáveis, esse rio largo que não cansa de correr, lento e sinuoso, ele próprio reconhecendo seus caminhos, recolhendo e filtrando de vária direção o caldo turvo dos afluentes e o sangue ruivo de outros canais para com eles construir a razão mística da história”.
― Raduan Nassar em “Lavoura Arcaica”. 



Nota um: o começo de não saber como se espantar

Entrenotas.  

Talvez começar pelo fim. 

Entre aproximações e afastamentos realizados pela câmera, a dança minimalista, às vezes delicada, outras vezes vigorosa, de Silvia Moura, nos convida a habitar e passear por sua casa. Ou serão suas casas? Silvia é Corpoárvoremulher que Casa e junta os pedaços.

Nesta criação-árvore frondosa muitas danças se reatualizam e bailam memórias. Se pensarmos numa economia da criação enquanto modo de permacultura, a artista remexe, revira e recolhe partes e restos de seu inventário de espetáculos, frutos de uma sólida carreira de 45 anos, e numa poética do rearranjo, os recria através de outras configurações e fabulações. 

São videodançares, como afirma o pesquisador e crítico Joubert Arrais, que permeiam questões como: a transitoriedade da vida, a certeza da morte, o onírico da infância e a brutalidade das relações humanas. É desse material, desse barro que a artista molda suas esculturas moventes. Embarcações para viagens profundas, melhor avisar!

Em Casa-Corpo-Mulher-Árvore cada visita a um cômodo expõe um incômodo. 

E vale um lembrete: Silvia é uma excelente contadora de histórias.  



Nota dois: enquanto vivemos também estamos nos despedindo

Ela não abandona seus movimentos, trechos coreográficos, nomes e rostos de pessoas e grupos, o amor e a comida de sua mãe, as falas, pensamentos e experiências que o tempo não consegue roubar ou fazer com que ela, deles se despeça. 

Suas des-peças são na verdade muitas peças numa peça só, como um quebra-cabeças que parece não se completar e talvez nem possa. 

Des-peça como não-peça porque é mais engrenagem e motor do que coisa estagnada. Silvia é caos e ordem.

Uma peça con-versa com outra. Estão ali outros trabalhos dela como Anatomia das coisas encalhadas, Engarrafada, A cadeirinha e eu. Está ali a “dança-desabafo” dessa bailarina que já conheci madura na quarta edição do Festival Curta Dança em Belo Horizonte, em 2019, referência para muitas gerações de artistas do Ceará e do Brasil. Estatura pequena, inquietude gigante. 

Estamos ali, eu e você, Silvia. Nós e tua casa-cenário e a árvore que cortaram do teu quintal, mas não cortaram das tuas vísceras.

Eles matam, você faz viver.  Não suporta as ausências. 

Os desenhos e murais feitos nas paredes pela filha também artista celebram alianças, povoam a casa e fecundam linhagens. O feminino ali é umbilical. 

Nota três: saudades do mar

Trago agora algumas características presentes nos trabalhos de Silvia Moura: uma dança falada e meditada, puro exercício de filosofia. São associações livres de sentimentos presos. “Senta, que lá vem prosa”. O biográfico entre ficção e memória. A dimensão confessional. Ela nos oferece água e café e a mesa coberta todinha de sentimentos. O pão é palavra saborosa. Ela preza pela proximidade e participação dos espectadores que também constroem o trabalho junto, são convocados e integrados. Corpo coletivo.

Há também a recorrente utilização de objetos configurando minúsculas cenografias e coleções numa justa medida entre o essencial, o cotidiano e o poético. Um gesto de zelo. As paisagens sonoras talvez sejam as provenientes dos objetos ou da coralidade urdida pelas vozes ressoadas no encontro cênico. Entre ruídos e silêncios, saímos de seus espetáculos mais humanizados. Humildes. O doméstico transfigurado em público.  O pequeno que abre abismos e buracos. 

Se a saudade do mar aperta seu peito, ela pega sua coleção de tampinhas e consegue com elas criar água para molhar desejos. Seus longos cabelos brancos serpenteiam como sinuosas ondas aquáticas. A cama toda azul é mar de água espumante.

Bruxa, ela liquefaz a dureza da realidade presente nos interditos e proibidos. Pela imaginação e utilização daquilo que já está ali roçando a pele e os poros, os possíveis se apresentam e as dores colorem e cicatrizam pela ludicidade de uma arte menina, bailarina, travessura e travessia. Saudade pode gerar doença, mas pela subversão dos usos dessas coisas destinadas ao abandono e descarte, viram saúde, saída, salvação. O precário em sua ascensão dá uma piscadela marota para nossa besta suntuosidade. 

Em toda apresentação ela quase se afoga de tanto que chora. A gente acaba rindo até um pouco por desespero.

Saudades de amar. 


Nota quatro: essas duas mulheres

Em Casa-Corpo-Mulher-Árvore Silvia Moura me deixou meio perdido e confuso. Não seria ela também um pouco Pacarrete, a inesquecível personagem do filme do Allan Deberton? Há algo da Pacarrete interpretada magistralmente pela Marcélia Cartaxo em Moura. Ambas brigam, ventam, choram, insistem, se veem sozinhas, fundam seus mundos particulares para dançar, não fecham jamais as cortinas. Tudo fica escancarado.

Nos violentam pela força da beleza. Encarnam a dádiva, a entrega, a intensidade, a loucura, a obsessão, as saúdes plenas não suportam os retos planos, então o giro é certo. Os desvios curam, arrepio eu senti, o preço que elas pagam deve ser caro, mas quem dança as vulnerabilidades não armazena cadáveres nem fantasmas. Perdição é não fazer, não ouvir e nem seguir a voz dos desejos, o sussurro do balançar das folhas de uma árvore casa mulher, os movimentos do inesperado. 

Ela, a dança, afinal é mulher. As coragens se precipitam assanhadas. 

Nota cinco: ser amiga do tempo

Silvia Moura é artista contemporânea, com o tempo tece o improvável, dele se aproxima e faz amizade, conhece as esperas, respeita as pausas, abraça os acontecidos e neles acontece com sua artevida. Atrevida, con-fia na próxima empreitada, enreda seus medos, não foge dos lutos, das lutas e das luas. A noite é um feito um gato que espreita, vive repleta de mistérios.

Silvia faz das escuridões: clarões. 

Traz a ebulição do signo de escorpião. Parece amar o risco. Carece armar o riso.

Sua matéria é o tempo, tempo, tempo, tempo.

Ela dança com ele. Ele dança com ela. Entre duetos e duelos, comungam as passagens. 

Ele faz suas marcas no corpo dela. Ela faz dessas marcas: gestos. 

Vingança vem em forma de “Vim dança”. 

Ela o convence a ser mais generoso com a gente. 

Como cantava Manoel de Barros: “eu não amava quando botassem data na minha existência. A gente usava mais era encher o tempo. Nossa data maior era o quando”. 

Silvia me emociona com sua dança-advérbio: quando casa, quando árvore, quando corpo, quando ginga, quando xinga, quando mulher. Quando vida. 

Quanta vida!


Nota final ou inicial? 

Em Casa-Corpo-Mulher-Árvore você afirma que vai voltar a dançar livremente como antes, Silvia. Eu discordo porque você já está dançando assim agora. 

Num tempo sem antes e sem depois.

Você

Mulher do seu tempo, que afirma a vida nesse momento,

Espirala

Esbarra e

esparrama o tempo!


Ficha técnica:

Criação/Interpretação/Coreografia: Silvia Moura

Músicos: Quio Petrus e Manuel Belisário

Textos: Silvia Moura

Participação especial: Germanno Santos

Pinturas e murais: Iná Moura/Noandro Meneses/Silvia Moura/Magdiel Menezes

Instalações e montagens: Pádua de Oliveira/ Silvia Moura/ Iná Moura/Noandro Meneses

Criação de luz; Marcos Silva e Silvia Moura

Técnica: Marcos Silva

Assistente de Técnica: Aline Sebastião

Captação de imagem e vídeo: Allan Diniz

Fotos: Luiz Alves

Apoio: Itaú Cultural